O mundo está hoje de olhos postos sobre o desenrolar da guerra no Médio Oriente, que já está a provocar um choque nos preços da energia e a despertar receios de haver um novo ciclo inflacionista. Este é um cenário que está sob olhar atento do Banco Central Europeu (BCE), que decidiu adotar uma postura vigilante e prudente nesta fase, deixando as suas taxas de juro diretoras inalteradas na reunião de política monetária desta quinta-feira, dia 19 de março. Mas a sua presidente, Christine Lagarde, já garantiu que fará “tudo o que for necessário para que a inflação esteja sob controlo”, em torno de 2%, o que se poderá traduzir em subidas dos juros já este ano.
Embora a incerteza global tenha escalado à medida que sobem as tensões no Médio Oriente, o BCE decidiu manter a sua política monetária inalterada esta semana, assumindo uma posição vigilante. Esta era, de resto, a decisão já esperada pelos analistas de mercado e que segue a mesma linha cautelosa adotada pela Reserva Federal dos EUA, que manteve os juros inalterados esta semana.
Esta é a sexta vez que o supervisor europeu deixa os juros diretores estáveis num intervalo neutro, desde que decidiu interromper o ciclo de cortes das taxas no verão de 2025. Assim vão ficar os juros do BCE, pelo menos, até à próxima reunião que se realiza a 30 de abril:
- Taxa aplicada à facilidade permanente de depósitos fica em 2,00%;
- Taxa de juro das principais operações de refinanciamento continua em 2,15%;
- Taxa aplicável à facilidade permanente de cedência de liquidez situa-se em 2,40%.
BCE mantém-se numa "boa posição" para enfrentar choque energético
A verdade é que esta é uma decisão estratégica do BCE, com a presidente Christine Lagarde a considerar que os juros estão numa “boa posição” para enfrentar choques futuros com o "três vezes dois", ou seja, ter a inflação nos 2% como meta a médio prazo, ter as expectativas de inflação em 2% e as taxas de juro a 2%. Também o Conselho do BCE reforçou esta quinta-feira que está "bem posicionado para navegar esta incerteza", gerada pelo novo choque energético provocado pelo agravamento do conflito no Médio Oriente, que paralisou o Estreito de Ormuz, por onde passam cerca de 20% do petróleo e gás do mundo.
O aumento dos preços da energia tem sido bem notório nas últimas semanas e já está a impactar as carteiras das famílias e empresas no espaço europeu. Esta quinta-feira, o preço do gás na Europa disparou 35% após os ataques às infraestruturas energéticas no Médio Oriente, em particular um ataque iraniano à maior instalação de produção de gás natural liquefeito do mundo, no Qatar. E o escalar de tensões também acabou por fazer subir ainda mais o preço do barril de petróleo Brent – a referência europeia - para cerca de 113 dólares.
Todo este cenário deverá refletir-se na inflação na zona euro brevemente – ainda que, em fevereiro, se tenha fixado em 1,9% e, portanto, perto do objetivo de médio prazo do BCE de 2%. “A forte subida do preço do petróleo e do gás poderá levar a um aumento da inflação, tanto nos preços da energia, como nos restantes produtos que dela necessitam para a sua produção ou transporte”, admite Miguel Cabrita, responsável pelo idealista/créditohabitação em Portugal. É o caso dos produtos alimentares e dos materiais de construção, por exemplo.
"A guerra no Médio Oriente tornou as perspetivas consideravelmente mais incertas, criando riscos em alta para a inflação e riscos em baixa para o crescimento económico", Conselho do BCE
É isso mesmo que reconhece o próprio Conselho do BCE, alertando também para impactos na economia europeia. "A guerra no Médio Oriente tornou as perspetivas consideravelmente mais incertas, criando riscos em alta para a inflação e riscos em baixa para o crescimento económico. Terá um impacto significativo na inflação a curto prazo através de preços mais elevados dos produtos energéticos. As suas implicações a médio prazo dependerão quer da intensidade quer da duração do conflito e da forma como os preços dos produtos energéticos afetarão os preços no consumidor e a economia", acrescenta em comunicado.
Foi perante este cenário que os analistas do BCE reviram em alta as previsões para inflação na zona euro, especialmente para este ano. Agora, projetam que a inflação global será, em média, de 2,6% em 2026, 2,0% em 2027 e 2,1% em 2028. Também a inflação subjacente - que exclui preços dos produtos energéticos e dos alimentos - foi revista em alta, para uma média de média de 2,3% em 2026, 2,2% em 2027 e 2,1% em 2028, "principalmente em virtude da transmissão dos preços mais elevados dos produtos energéticos à inflação".
Há um mês, o BCE considerou que “a economia europeia permanece resiliente numa conjuntura mundial difícil", embora tenha crescido apenas 0,2% no final de 2025, uma perspetiva reforçada esta quinta-feira. E, agora, deverá ser novamente posta à prova perante um novo choque energético mundial, que poderá travar o consumo e o investimento.
Perante o novo contexto geopolítico desafiante, os especialistas do BCE reviram em baixa as suas perspetivas de crescimento económico europeu para 0,9% em 2026, 1,3% em 2027 e 1,4% em 2028 (valores médios). Nestas projeções estão vertidos "os efeitos da guerra nos mercados de matérias-primas, nos rendimentos reais e na confiança a nível mundial. Ao mesmo tempo, o desemprego baixo, a solidez dos balanços do setor privado e a despesa pública em defesa e infraestruturas deverão continuar a sustentar o crescimento", indica.
Uma análise do supervisor europeu sobre cenários futuros sugere "que perturbações prolongadas na oferta de petróleo e gás resultariam numa inflação superior e num crescimento inferior aos avançados nas projeções de referência", ressalvando que tudo depende "da magnitude dos efeitos indiretos e de segunda ordem de um choque energético mais forte e mais persistente".
Membros do BCE alertam para aperto dos juros mais cedo do que o esperado
Esta quinta-feira, o BCE assumiu um tom mais vigilante em resposta à forte subida dos preços da energia perante o conflito no Irão, reafirmando que "está a acompanhar de perto a situação e a sua abordagem dependente dos dados ajudá-lo-à a definir uma política monetária apropriada". E não se comprometeu com uma trajetória de taxas específica. A verdade é que já há vozes dentro do próprio banco central a alertar para possíveis aumentos dos juros diretores mais cedo do que o esperado, um movimento que deverá ser usado para controlar a inflação na zona euro no médio prazo em torno de 2%.
O governador do banco central da Eslováquia e membro do BCE, Peter Kazimir, já avisou que uma reação do supervisor bancário “está potencialmente mais perto do que muitas pessoas pensam", sem adiantar, contudo, quando é que um agravamento da política monetária poderá ocorrer. Considerou apenas, em entrevista à Bloomberg, que o BCE está numa “boa posição” e “preparado” para reagir a um choque inflacionista se for necessário.
Também Joachim Nagel, presidente do Bundesbank (banco central da Alemanha) e membro do BCE, garantiu que o supervisor europeu está "muito vigilante" sobre o desenrolar do conflito no Médio Oriente e tomará medidas se for necessário. "Se se tornar evidente que os atuais aumentos dos preços da energia se traduzirão numa inflação generalizada a médio prazo, o conselho de governadores do BCE agirá de forma decisiva e atempada”, disse à Reuters.
“Os membros do Conselho do BCE salientaram que o efeito da guerra com o Irão sobre o risco inflacionista depende da duração do conflito e que prevalece uma estrita dependência dos dados, reagindo apenas se as expectativas de inflação se desviarem, embora também tenham apontado que, ao contrário de 2022, a zona euro entra neste choque com uma política mais restritiva, apesar de os relatos recentes destacarem uma maior vigilância perante a incerteza geopolítica", analisa Martin Wolburg, economista sénior da Generali Investments, considerando que o BCE "olhará além dos picos transitórios nos preços da energia".
Recentemente, a própria presidente do BCE garantiu que fará “tudo o que for necessário para que a inflação esteja sob controlo e para que (…) os europeus não sofram aumentos da inflação do tipo daqueles que vimos nos anos de 2022 e 2023", desencadeados pela guerra na Ucrânia. Mas Lagarde não respondeu quando questionada sobre um potencial aumento dos juros do BCE no futuro, invocando a forte "incerteza" que persiste em relação à situação no Médio Oriente.
Primeira subida dos juros do BCE à espreita no verão, dizem analistas
A verdade é que os mercados financeiros já estão a descontar, pelo menos, uma subida dos juros do BCE em 2026, a qual deverá ser justificada pela subida da inflação na área euro no médio prazo desencadeada por um choque energético mais longo do que o esperado, devido ao alongar do conflito que opõe o Irão aos EUA e Israel. O primeiro aumento dos juros do BCE é esperado no verão.
“A falta de mudanças imediatas por parte do BCE não nos deve levar a conclusões precipitadas: a guerra no Médio Oriente alterou radicalmente a previsão do cenário controlado para este ano, adicionando um claro risco inflacionário que pode levar a aumentos nas taxas de juro nas próximas reuniões”, afirma Miguel Cabrita, responsável pelo idealista/créditohabitação em Portugal.
A expectativa dos mercados passou, portanto, de uma manutenção das taxas do BCE durante a maior parte de 2026 para a possibilidade de haver aumentos dos juros. “As perspetivas de um aumento das taxas do BCE dependerão quase inteiramente da persistência dos preços elevados da energia e, por extensão, da possibilidade de o Estreito de Ormuz permanecer efetivamente intransitável”, indica a Ebury Portugal, admitindo que “os mercados de swaps já estão praticamente a precificar dois aumentos de 25 pontos-base na taxa de juro entre agora e o final do ano, em resposta a essa potencial dinâmica inflacionária".
Embora considere que, para já, “os bancos centrais deverão ignorar o pico temporário da inflação” deixando os juros inalterados - tal como se confirmou nos EUA, Inglaterra, Suécia e Japão, por exemplo - Michele Morganti, estrategista sénior de ações na Generali AM, acredita que num “cenário de escalada prolongada” é possível que o BCE suba as taxas até 50 pontos base até ao final de 2026.
Também o presidente da ActivTrades Europe, Ricardo Evangelista, não considera provável que "o BCE reaja imediatamente", mas nos próximos meses e consoante o desenrolar do conflito. Se não houver perspetivas de resolução do conflito no curto e médio prazo, “não surpreenderá que o banco central venha a subir as taxas de juro, com os mercados a anteciparem dois aumentos de 25 pontos base antes do final do ano", afirmou.
A Xtb indica que os analistas estão a apontar para um primeiro aumento dos juros do BCE de 25 pontos base na reunião de julho e um segundo aumento de 25 pontos base quase totalmente descontado para a reunião do BCE em dezembro.
Na perspetiva de Francisco Rodríguez, diretor de Estudos Financeiros da Fundação das Caixas Económicas (a espanholaFuncas), há três fatores fundamentais que poderiam forçar o BCE a subir os juros: “Um ressurgimento da inflação subjacente, especialmente no setor de serviços; um mercado de trabalho com pressões salariais incompatíveis com a meta de 2%; e choques externos persistentes (energia, tensões geopolíticas ou taxas de câmbio) que se traduzam em preços mais altos”.
As próximas reuniões do BCE
O Conselho do BCE reúne-se aproximadamente de seis em seis semanas. Este é o calendário das próximas reuniões de política monetária do guardião do euro, nas quais vai anunciar as suas decisões sobre as taxas de juro diretoras:
- 30 de abril de 2026
- 11 de junho de 2026
- 23 de julho de 2026
- 10 de setembro de 2026
- 29 de outubro de 2026
- 17 de dezembro de 2026
*Com Lusa
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