IVA a 6% na construção? “Preço de um T3 no Seixal baixava 70.000 euros”

Compra de casas novas seria acessível a mais pessoas com redução do IVA, diz Pascal Gonçalves, administrador do Grupo Libertas.
Promoção imobiliária em Portugal
Pascal Gonçalves, administrador do Grupo Libertas Grupo Libertas

“Não existe uma solução única para resolver a crise na habitação, mas sim um conjunto de medidas integradas que poderão resultar bem”. Quem o diz é Pascal Gonçalves, administrador do Grupo Libertas, que “ao longo das últimas três décadas desenvolveu centenas de projetos imobiliários em Portugal, correspondendo a mais de 4.000 casas”. Em entrevista ao idealista/news, o gestor considera que é crucial aumentar a oferta de casas no mercado, simplificando, entre outras medidas, “os processos de licenciamento e incentivando a reabilitação urbana”. Sobre a redução do IVA na construção para 6%, uma medida anunciada pelo Governo da AD com vista a avançar até ao final da legislatura, faz as contas e dá um exemplo concreto: “Poderíamos baixar cerca de 70.000 euros o preço de um T3 no Seixal”. 

Segundo Pascal Gonçalves, o Grupo Libertas tem consciência que as casas que coloca no mercado “têm um preço justo para o valor que têm”, ao contrário do “que muitas vezes se verifica”. “É possível oferecer habitações de qualidade a preços competitivos, promovendo uma oferta equilibrada para diferentes públicos. (…) O nosso compromisso é garantir que contribuímos para o aumento da oferta imobiliária em Portugal, sem comprometer os padrões de conforto e a inovação como pilares da nossa atividade desde a nossa génese”, acrescenta. 

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Entre os vários temas abordados na entrevista estão também os novos (e futuros) empreendimentos do Grupo Libertas, nomeadamente o Lux Garden Evo e o Unique Albufeira. Já a aposta em projetos de Build to Rent (Construir para Arrendar) está ainda a ser analisada, estando a ser estudada “uma possível parceria”. “É preciso mais oferta de casas para arrendar nos grandes centros urbanos, isto para manter a economia competitiva”, sustenta. 

Promoção imobiliária em Portugal
Empreendimento Unique Tagus, em Alcochete Grupo Libertas

O Grupo imobiliário Libertas conta com mais de três décadas de experiência e concentra a atividade sobretudo nas zonas litorais (Lisboa, Alcochete, Seixal, Albufeira, Lagoa e Faro). A que se deve esta aposta? Consideram alargar a outras zonas?

O Grupo Libertas tem apostado em algumas zonas litorais portuguesas, designadamente Lisboa, Alcochete, Seixal, Faro, Albufeira e Lagoa, pela atratividade natural dessas regiões, que combinam qualidade de vida, proximidade ao rio/mar e forte potencial de valorização imobiliária. Estas áreas oferecem um equilíbrio entre a oferta residencial e turística, atendendo tanto à procura local como internacional.

A Libertas começou por ser urbanizadora e, nas cidades já referidas, comprámos terrenos grandes. Aos poucos, passámos de urbanizador para promotor imobiliário por dois motivos: havia menos empresas à procura de comprar lotes para desenvolver essas áreas geográficas e apercebemo-nos que podíamos subir na cadeia de valor, construindo e comercializando as unidades de alojamento.

Também estamos presentes em Palmela, Figueira da Foz e Pombal, pois os acionistas do grupo são descendentes da região centro. De todo o modo, a nossa estratégia de expansão está sempre em evolução. Poderemos vir a abraçar outras regiões e municípios, em função das oportunidades que surgirem, e estamos atentos, nomeadamente, a áreas urbanas emergentes e a regiões com potencial de crescimento sustentável, mas certo é que queremos continuar a atuar nas localizações onde já temos ‘track record’.

Fale-nos um pouco sobre os quatro projetos anunciados recentemente para o Algarve. 

Vamos ter dois projetos em Albufeira, um em Faro e um em Loulé. Destes quatro, dois vão ser lançados nos próximos três meses, os outros vão levar mais tempo. Os próximos lançamentos são o Lux Garden EVO, em Faro, um condomínio fechado que reúne características e áreas ímpares, e o Unique Albufeira, que terá uma arquitetura moderna e disruptiva e será um marco na zona da cidade onde vai ser desenvolvido.

Estes dois projetos distinguem-se de forma clara, designadamente pelos espaços comuns de grande qualidade que apresentam, tanto no interior dos edifícios como nas zonas exteriores e jardins. Em detalhe:

  • Lux Garden Evo: situado em Faro, em frente ao Lux Garden, ainda não iniciou a construção. Temos previsto o lançamento da primeira pedra no primeiro trimestre do próximo ano. É um condomínio fechado que contará com 117 habitações e está a cargo do gabinete de arquitetura TIP, liderado por Tiago Palmela. A conclusão prevista para final de 2026;
  • Unique Albufeira: tem previsto iniciar a primeira fase da construção em fevereiro de 2025 e terá 140 habitações. O projeto foi concebido também pelo gabinete TIP e a conclusão está prevista para 2027.

Em relação aos projetos anunciados na Marina de Albufeira e Loulé, ambos encontram-se numa fase muito embrionária, pelo que, logo que seja possível, transmitiremos mais informações.

Casas novas em Faro
Luz Garden Evo está a nascer em Faro Grupo Libertas

Sustentabilidade é palavra de ordem no setor imobiliário. É algo a que a Libertas está atenta? O que está a adotar no processo construtivo dos projetos residenciais que antes não adotava?

A sustentabilidade está no centro da nossa estratégia desde muito cedo. Temos a certificação ambiental ISO 14001 desde 2008, ou seja, há mais de 15 anos, e trata-se de um processo exigente e auditado pela TUV Rheinland. Tudo isto impacta todos os projetos que a Libertas assina.

Estamos a adotar soluções inovadoras e ambientalmente responsáveis em todos os empreendimentos, desde a escolha de materiais com menor impacto ambiental até à incorporação de tecnologias de eficiência energética, como painéis solares, sistemas de gestão de água e isolamento térmico de alta performance.

"A sustentabilidade está no centro da nossa estratégia desde muito cedo. (...) Estamos a adotar soluções inovadoras e ambientalmente responsáveis em todos os empreendimentos, desde a escolha de materiais com menor impacto ambiental até à incorporação de tecnologias de eficiência energética, como painéis solares, sistemas de gestão de água e isolamento térmico de alta performance"

A maioria dos nossos novos projetos estão a ser certificados com as mais altas classificações ambientais, como as certificações energéticas A e A+ e a eficiência hídrica classificada com o Aqua+. De salientar, contudo, que o nosso compromisso não se limita à fase de construção, estende-se também ao ciclo de vida dos edifícios, promovendo uma redução da pegada de carbono e um uso mais eficiente dos diferentes recursos.

Dependendo de cada projeto, procuramos usar soluções diferentes, mas sempre com a redução das emissões em mente e com um especial cuidado no que aos consumos de água diz respeito.

Em jeito de balanço, quantos projetos já desenvolveu o Grupo Libertas em Portugal e qual foi o valor investido nos mesmos? Estamos a falar de quantas casas?

Ao longo das últimas três décadas, o Grupo Libertas desenvolveu centenas de projetos imobiliários em Portugal, correspondendo a mais de 4.000 habitações. Em termos de investimento, não conseguimos precisar, de momento, os milhões de euros investidos, que refletem toda a nossa dedicação ao desenvolvimento de empreendimentos de elevada qualidade e durabilidade. Em bom rigor, quase vamos perdendo a conta certa ao número de projetos, até porque para toda a equipa Libertas o que conta é sempre o próximo, onde pretendemos incorporar a experiência adquirida com o passado.

Que projetos tem o Grupo Libertas previsto lançar nos próximos anos, além dos mais recentes anunciados para o Algarve?

Além dos projetos recentemente anunciados para o Algarve, o Grupo Libertas possui uma agenda diversificada e ambiciosa para os próximos anos. Estamos focados em continuar a investir em projetos residenciais de alta qualidade, em várias zonas estratégicas. Vamos prosseguir com desenvolvimentos na zona de Lisboa (Lisboa, Alcochete, Montijo, Seixal, Palmela e Setúbal) e na região centro, designadamente Figueira da Foz e Pombal. Ainda assim, estamos e estaremos sempre atentos a novas oportunidades, já que gostaríamos de desenvolver a área de Hotéis & Resorts.

Casas novas no Algarve
Assim será o Unique Albufeira Grupo Libertas

Serão sobretudo casas pensadas para os portugueses, para a classe média nacional? Este é o target?

O objetivo é atender a um mercado diversificado, embora tenhamos projetos que visam o segmento de luxo, como o Unique Benfica, Unique Belém e Palácio Santa Clara – The Standard Residences. Muitos dos nossos empreendimentos, como o Riva, que está a nascer no Seixal, ou o Albufeira Garden, no Algarve, são desenvolvidos a pensar na classe média alta.

"Acreditamos que é possível oferecer habitações de qualidade a preços competitivos, promovendo uma oferta equilibrada para diferentes públicos (...). Temos consciência de que as nossas casas têm um preço justo para o valor que têm, contrariamente ao que muitas vezes se verifica no mercado"

Acreditamos que é possível oferecer habitações de qualidade a preços competitivos, promovendo uma oferta equilibrada para diferentes públicos, já que no Grupo Libertas temos a vantagem de ter dentro de portas desde a construção à promoção imobiliária. O nosso compromisso é, então, garantir que contribuímos para o aumento da oferta imobiliária em Portugal, sem comprometer os padrões de conforto e a inovação como pilares da nossa atividade desde a nossa génese. 

Na Libertas desenhamos habitações com e para o gosto português, que são compradas por portugueses, residentes em Portugal ou fora, assim como por estrangeiros, que vêm ao país, identificam oportunidades e reconhecem o ótimo rácio qualidade/preço. Temos consciência de que as nossas casas têm um preço justo para o valor que têm, contrariamente ao que muitas vezes se verifica no mercado.

As cooperativas são uma das apostas do Governo para dar resposta à crise na habitação. O Grupo Libertas está atento a este “negócio”? 

As cooperativas representam uma alternativa interessante para a dinamização do mercado imobiliário, sobretudo no que toca à habitação acessível. O Grupo Libertas está sempre atento a novas formas de contribuir para o aumento da oferta habitacional e, embora ainda não tenhamos investido diretamente nesse modelo, reconhecemos o seu potencial para fornecer alternativas a preços mais acessíveis.

Casas novas em Lisboa
Empreendimento Unique Benfica, em Lisboa Grupo Libertas

E o negócio do Build to Rent entra na equação do Grupo Libertas? Porquê? 

O Grupo Libertas não está a apostar neste modelo, embora tenhamos confiança no seu potencial, dado o sucesso que tem demonstrado em diversos países. Estamos a estudar uma possível parceria, eventualmente, mas ainda nada em concreto. É preciso mais oferta de casas para arrendar nos grandes centros urbanos, isto para manter a nossa economia competitiva.

Contudo, é importante destacar que fatores como a carga fiscal, as constantes mudanças à legislação e a burocracia associada são alguns obstáculos que dificultam o investimento imediato neste setor, mesmo com um aumento da sua procura.

Para tornar o mercado de arrendamento mais dinâmico, é fundamental implementar políticas fiscais mais favoráveis, assegurar maior segurança jurídica para os proprietários e estabelecer um apoio institucional mais robusto. 

Outra das medidas anunciadas pelo Governo é a descida do IVA na construção para 6%, estando a mesma ainda na gaveta. Que impacto teria para o mercado?

A redução do IVA na construção teria um impacto positivo, sem dúvida. Ao aliviar os custos associados à construção, essa medida permitiria uma maior margem para os promotores ajustarem os preços de venda e investirem em novos projetos. A longo prazo, contribuiria para aumentar ainda a oferta habitacional e, por conseguinte, estabilizar (ou mesmo reduzir) os preços das casas.

Adicionalmente, o IVA a 6% permitiria a viabilização de muitos projetos de maior dimensão nos arredores das grandes cidades e tornaria acessível a mais pessoas a aquisição de casas novas. Poderíamos, por exemplo, baixar cerca de 70.000 euros o preço de um T3 no Seixal, caso o IVA reduzisse.

Que efeitos as medidas do Governo de apoio aos jovens (isenção de IMT e IS e garantia pública no crédito habitação), a par dos cortes nos juros por parte do BCE, podem ter na procura de casas à venda e nos preços da habitação?

Essas medidas de apoio, especialmente a isenção de impostos e a garantia pública no crédito habitação, podem impulsionar a procura, particularmente entre os jovens. No entanto, é crucial que o aumento da procura seja acompanhado por uma oferta suficiente de novas habitações. Se isso não acontecer, podemos observar uma pressão adicional nos preços. No entanto, tudo o que sejam políticas que facilitem o acesso à compra por parte dos jovens são um bom passo e na direção certa, já que o problema reside no lado da oferta. 

Há uma “receita milagrosa” capaz de pôr um ponto final na crise na habitação que se vive no país?

Não existe uma solução única, mas sim um conjunto de medidas integradas que poderão resultar bem. A solução para a crise habitacional que estamos a travessar passa por aumentar a oferta de habitações disponíveis, simplificando os processos de licenciamento e incentivando a reabilitação urbana.

Além disso, políticas fiscais e de financiamento que tornem o desenvolvimento imobiliário mais acessível são essenciais para criar um mercado equilibrado e sustentável, que realmente responda às necessidades do mercado. 

A colaboração entre o setor público e privado, por exemplo, pode criar um ambiente mais favorável ao investimento, resultando num mercado habitacional mais dinâmico, justo e equilibrado a longo prazo.

Não há milagres para esta crise. O diagnóstico está feito. É agora preciso determinação e algum tempo para se obterem os primeiros resultados. Investimento público em habitação, que não tem existido nos últimos anos, tem de vir completar esta equação.

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