Guerra na Ucrânia pressiona (mais) a escalada de preços na construção

Que impacto terá o conflito entre russos e ucranianos no setor da construção em Portugal? Custos devem subir, alerta Reis Campos.
Impacto da guerra na Ucrânia na construção
GTRES

Guerra da Ucrânia, que eclodiu há uma semana e terá efeitos no imobiliário segundo antecipam os especialistas, também já fez soar os alarmes no setor da construção em Portugal. Dando provas de dinamismo e resiliência ao longo da pandemia, o setor vive, no entanto, a braços com um agravamento nos custos de construção, derivado da escassez de matérias-primas e de mão de obra - que se agudizou nos últimos dois anos. E o cenário é agora mais negro a este nível. “A expectativa que existe neste momento é de agravamento da generalidade dos custos operacionais das empresas incluindo, em especial, os materiais de construção”, indica Manuel Reis Campos, presidente da CPCI e da AICCOPN, em declarações ao idealista/news.

Este contexto de crise gerado pelo conflito entre russos e ucraniamos soma-se a problemas antigos da construção em Portugal, relacionados com consecutivos atrasos nos processos de licenciamento urbanístico e uma alta carga fiscal - há anos que os players do setor reclamam por um IVA reduzido na construção nova, por exemplo. Todas estas variáveis, junto a outros efeitos do mercado como a alta procura face à baixa oferta, acabam por resultar num aumento dos preços das casas.

Publicidade

 

Soube-se no início do mês passado, antes do estalar consumado da guerra na Ucrânia - que aconteceu a 24 de fevereiro de 2022, depois de meses de avisos de Putin a Zelensky e ao mundo -, que os custos de construção de habitação nova aumentaram 6,8% em dezembro de 2021 face ao período homólogo, segundo as estimativas mais recentes do Instituto Nacional de Estatística (INE) e que se podem analisar no gráfico em cima. Um crescimento homólogo que também ocorreu com os preços dos materiais, já que aceleraram 8,0%, e com o custo da mão de obra, que aumentou 5,1% (ver gráficos em baixo). 

Que impacto pode ter a guerra entre a Rússia e a Ucrânia na construção em Portugal?

Manuel Reis Campos, presidente da Associação dos Industriais da Construção Civil e Obras Públicas (AICCOPN) e da Confederação Portuguesa da Construção e do Imobiliário (CPCI), lembra que “a maioria dos países ainda está a lidar com as consequências da pandemia e a procurar implementar estratégias de recuperação sustentada”. Além disso, "a crescente pressão inflacionista que se tem vindo a registar ao nível dos preços das matérias-primas, da energia e, em particular, dos materiais de construção, vai continuar a verificar-se e, a este nível, veja-se o que está a ocorrer hoje [quarta-feira, dia 2 de março de 2022] na cotação do preço do petróleo nos mercados internacionais, e que sinaliza problemas acrescidos no imediato, que afetarão, inevitavelmente, os custos de construção, que continuarão a manter uma tendência de agravamento”, alerta o Reis Campos.

Paralelamente, recorda em declarações ao idealista/news, vive-se um ambiente macroeconómico de “profunda incerteza, pelo que afetará naturalmente o investimento, a confiança dos investidores e as suas expectativas para os projetos previstos”. 

Impacto da guerra na construção em Portugal
Manuel Reis Campos, presidente da AICCOPN e da CPCI AICCOPN / CPCI

Projetos no âmbito do PRR em risco?

Outro detalhe a ter em conta está relacionado com os projetos que estavam pensados para sair do papel em Portugal no âmbito do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR). Sobre este tema, Reis Campos é perentório: “No que diz respeito aos concursos promovidos e já celebrados, nomeadamente no âmbito do PRR, há um incremento do grau de incerteza da sua concretização, que resulta diretamente destes riscos acrescidos que estamos a enfrentar e que impactam, de uma forma transversal, toda a atividade económica”. 

A solução, defende, pode passar pela definição de “preços base realistas para os concursos”, bem como pela utilização plena dos “mecanismos para reequilibrar os contratos, como a alteração anormal e imprevisível de circunstâncias, adequadas as fórmulas de revisão de preços dos contratos para refletir de forma ajustada as variações dos custos efetivos”. Também a criação de “um fundo nacional que possibilite aos donos de obra pública fazer face a variações significativas de preços nas empreitadas, assegurando que as empresas são justamente ressarcidas”, é uma alternativa em cima da mesa, aponta o responsável. 

Construção pode vir a empregar emigrantes ucranianos 

A falta de mão de obra qualificada é um dos problemas identificados por Manuel Reis Campos a nível nacional. Uma dificuldade, de resto, que não é de agora. O líder da AICCOPN e da CPCI fala na necessidade do setor precisar de 80 mil trabalhadores e considera urgente tomar “soluções concretas” nesta área: “Desde questões estruturais como a reorientação da formação profissional, tirando partido dos centros de formação de excelência do setor, o CICCOPN e o CENFIC, de forma a responder às necessidades do mercado de trabalho, até medidas mais imediatas que devem incluir a vaga de migração de população ucraniana que se espera vir a acolher no nosso país”. 

Materiais de construção tendem a subir

Perante tudo isto, Manuel Reis Campos antevê um cenário: que os preços dos materiais de construção continuem a subir. Uma tendência que já se verificava “antes da escalada da situação na Ucrânia”. 

“A anómala subida dos preços e as disrupções nas cadeias globais de produção e distribuição continuavam sem dar sinais de abrandamento, ainda que a maioria dos bancos centrais continuasse a indicar que se tratava de um fenómeno temporário e a generalidade dos cenários macroeconómicos apontasse para uma reversão gradual ao longo do ano. Perante o que estamos a assistir, sobretudo nas cotações dos preços nos mercados das matérias-primas e da energia, a expectativa que existe neste momento é de agravamento da generalidade dos custos operacionais das empresas, incluindo, em especial, os materiais de construção”, comenta. 

Preços das casas vão continuar a subir com a guerra?

Muito se tem falado no aumento dos preços das casas, que tem sido constante ao longo dos últimos anos, não tendo dado sinais de grande abrandamento durante a pandemia. Aliás, a Covid-19, conforme escrevemos, só veio provar a "força e resiliência" do mercado imobiliário português em situações de crise. Tudo apontava, portanto, para um ano de 2022 repleto de otimismo. Mas, de repente, acontece uma inesperada guerra, com consequências económicas ainda incertas. Será que, perante todo este cenário, é expectável que os preços das casas continuem a subir em Portugal? 

"Se os aumentos nos custos de construção continuarem a materializar-se, acabarão por se refletir, inevitavelmente, nos preços das casas e nos encargos de manutenção das mesmas"
Manuel Reis Campos, presidente da AICCOPN e da CPCI

Esta é, de resto, outra das preocupações de Manuel Reis Campos. “Se os aumentos nos custos de construção continuarem a materializar-se, acabarão por se refletir, inevitavelmente, nos preços das casas e nos encargos de manutenção das mesmas”. 

O líder da CPCI e da AICCOPN recorda, ainda, que não está em causa “apenas um impacto limitado a um conjunto de produtos ou serviços”, mas sim “um aumento generalizado dos preços, que já é uma realidade, mas que pode vir a ser acelerado em resultado dos desequilíbrios macroeconómicos induzidos” pelo conflito, a par de uma alta inflação - a Zona Euro alcançou um novo máximo em janeiro, segundo os dados mais recentes do Eurostat.

Preço das casas em Portugal
Photo by krakenimages on Unsplash

Recuperação da indústria portuguesa da madeira em risco

Por outro lado, já foram dados sinais de preocupação quanto à indústria portuguesa de madeira, cuja recuperação pode desacelerar com a guerra da Ucrânia. Em causa estão as sanções à Rússia, que terão um impacto nos custos para as empresas portuguesas, já que são dos principais exportadores da matéria-prima. A garantia é dada pelo presidente da Associação das Indústrias de Madeira e Mobiliário de Portugal.

“Ao nível do nosso setor, a Rússia exporta muita madeira para a Europa, tal como a Ucrânia e todos os países do Báltico. Se houver restrições à entrada, vai criar pressão na oferta e na procura de outros mercados. Por direta ou via indireta, há sempre um impacto no preço (…), já para não falar nas questões dos transportes, do risco, de mobilidade de pessoas”, diz Vitor Poças, citado pela Lusa. 

O responsável deixa no ar outro potencial problema: “[Se] as indústrias italianas que exportam para a Rússia passarem a estar constrangidas ou terem medidas restritivas para a exportação e poderem vir a fazer concorrência noutros mercados onde estão as empresas portuguesas. Tudo isto é uma bola de neve e ainda estamos longe de saber quais são os impactos”, adianta. 

Vitor Poças, que falava durante no primeiro dia da feira dedicada ao setor da construção Futurebuild, que decorre em Londres – termina esta quinta-feira –, revela que o “setor das indústrias de madeira e mobiliário é um caso de estudo positivo em Portugal”. “Cresceu 1.000 milhões de euros entre 2011 e 2019. Em 2021, apresentou um resultado histórico, porque bateu o recorde alcançado em 2019 por mais um 1,6 milhões de euros acima daquilo que tinha em 2019”, somando 2.587 milhões de euros, salienta. 

Guerra na Ucrânia
Edifício na Ucrânia alvo dos ataques da Rússia GTRES

Grupo siderúrgico russo suspende entregas à Europa

Os sinais dos efeitos da guerra, que faz hoje uma semana que eclodiu, já são visiveis a vários níveis e com efeitos no setor da construção. Por exemplo, o grupo siderúrgico russo Severstal suspendeu as entregas na Europa após as sanções impostas pela União Europeia (UE) contra o seu principal acionista russo Alexei Mordashov, em retaliação à invasão da Ucrânia pela Rússia.

“Suspendemos as entregas na UE no quadro das sanções impostas a um acionista [da companhia]. Estamos a direcionar os fluxos de matérias-primas para mercados globais alternativos”, afirma a Severstal, num comunicado citado pelas agências de notícias russas. As entregas para a Europa são de cerca de 2,5 milhões de toneladas de aço por ano e representam cerca de um terço da faturação total da empresa, refere a Lusa, que se apoia no documento.

A UE colocou na segunda-feira Alexei Mordashov, principal acionista do grupo russo, numa lista de personalidades consideradas próximas ao Presidente russo, Vladimir Putin. As personalidades que constam dessa lista foram sancionadas com o congelamento dos seus bens e a proibição de permanecer na UE devido à invasão da Ucrânia pela Rússia.

Em comunicado, Mordashov distanciou-se das autoridades russas. “Não tenho absolutamente nada a ver com as atuais tensões geopolíticas e não entendo por que a UE impôs sanções a mim. É terrível que ucranianos e russos estejam a morrer, que as pessoas estejam a sofrer privações e que a economia esteja a entrar em colapso”, refere o empresário.

Guerra Rússia e Ucrânia
Guerra na Ucrânia está a fazer vários mortos e feridos GTRES

Para poder comentar deves entrar na tua conta