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A odisseia do alojamento universitário: onde (ainda) há oferta e a que preços

Photo by John Schnobrich on Unsplash
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Autor: Redação

Dentro de uma semana são conhecidos os resultados da 1ª fase de candidaturas ao ensino superior. Depois de conhecido o destino, muitos estudantes universitários terão de enfrentar um novo desafio: encontrar um espaço para viver e a preços acessíveis. O aumento gradual das rendas, em especial nas grandes cidades, e a falta de oferta, devido à alta do momento no imobiliário e no turismo, tornará a tarefa mais difícil. O problema da escassez de camas foi, aliás, identificado pelo Governo – que este ano colocou 600 novas camas no mercado regulado –, mas ainda está longe de ser resolvido.

A verdade é que encontrar um quarto a um preço razoável pode ser uma verdadeira dor de cabeça para as famílias. Portugal tem 372.753 alunos matriculados no ensino superior, segundo os dados da PORDATA, mas não tem conseguido colmatar o problema da falta de camas. Lisboa e Porto são as cidades que recebem mais inquilinos: no ano passado, 10.377 estudantes universitários foram parar à capital, e houve 8.151 colocados no Porto, de acordo com os dados da Direção-Geral de Ensino Superior (DGES). Este ano os números devem aumentar.

A primeira fase de candidaturas ao ensino superior – arrancou a 17 de julho - recebeu 51.291 candidaturas – são mais 1.666 candidatos que no ano anterior. Os resultados são conhecidos no próximo dia 9 de setembro de 2019, mas há quem já tenha começado a odisseia da procura de quarto – que já chega custar mais que um T0 ou um T1 noutras zonas do país. As residências públicas são um “tubo de escape” insuficiente, e as privadas não estão ao alcance de todos os bolsos.

Quartos podem ultrapassar os 800 euros

Decidimos ir à procura de quartos para arrendar no idealista, nomeadamente juntos dos principais pólos universitários em Lisboa e Porto - os dados não têm qualquer fundamento estatístico, são meramente indicativos e relativos à oferta disponível no dia 4 de setembro de 2019.

Se um estudante for colocado na Universidade Nova de Lisboa, na zona das Avenidas Novas, irá encontrar quartos com preços que oscilam entre os 200 e os 890 euros por mês. Um cenário em tudo semelhante à zona do Campo Grande, onde estão localizados o ISCTE e a Universidade de Lisboa. Para essas zonas encontrámos casas com quartos que vão dos 250 aos 750 euros. Quem entrar na Universidade Católica, na zona de São Domingos de Benfica, não vai encontrar preços muito diferentes: há quartos entre os 270 e os 710 euros.

Bairro Azul - Parque Eduardo VII, Avenidas Novas - 650 euros
Bairro Azul - Parque Eduardo VII, Avenidas Novas - 650 euros

No Porto, os preços são ligeiramente mais baixos do que na capital. Na União de Freguesias da Cedofeita, Santo Ildefonso, Sé, Miragaia, São Nicolau e Vitória, os preços começam nos 200 euros e vão até aos 600 euros – é nesta zona que estão localizadas as diferentes faculdades da Universidade do Porto. No Bonfim há quartos entre os 200 e os 415 euros, sendo que na freguesia de Paranhos o intervalo situa-se entre os 165 e os 575 euros - uma zona de interesse para quem entrar, por exemplo, na Universidade Fernando Pessoa.

Residências das faculdades: preços baixos, mas não chegam para todos

A maioria das faculdades têm residências próprias com preços acessíveis. Trata-se, porém, de um balão de oxigénio que chega a muito poucos. Os Serviços de Ação Social da Universidade Nova de Lisboa dispõem atualmente de três residências universitárias, com um total de 454 camas, para uso dos alunos da universidade, “com preferência para bolseiros portugueses e estudantes estrangeiros de programas de mobilidade”, lê-se no site.

Na Residência Alfredo de Sousa, em Campolide, há 180 camas disponíveis com mensalidades que variam entre os 212 euros (quarto duplo com WC partilhado) e os 395 euros (quarto individual com WC privado). A Residência do Lumiar tem 70 camas, cujos preços variam entre os 212 e os 395 euros. No Monte da Caparica, a Residência Fraústo da Silva disponibiliza 210 camas entre os 179 euros e os 330 euros.

A Universidade de Lisboa disponibiliza 16 residências dedicadas a estudantes. Há camas na zona do Lumiar, no Campo Grande ou em Benfica. Em qualquer ums destas lozalizações, segundo as tabelas de preço no site, os valores oscilam entre os 145 euros e os 180 euros. Os estudantes bolseiros pagarão 76,26 euros por um quarto.

Na Invicta, a Universidade do Porto disponibiliza nove residências estudantis. Os bolseiros pagam uma mensallidade de 75,06 euros e os não-bolseiros 160 euros. Para os estudantes de doutoramento, pós-doutoramento, mestrado e investigadores os valores oscilam entre os 175 e os 390 euros.

Setembro arranca com mais 600 camas no mercado regulado

O problema da falta de camas no país foi reconhecido pelo Executivo socialista de António Costa, que decidiu colocar em marcha o Plano Nacional para o Alojamento no Ensino Superior (PNAES). Em causa está um programa de intervenção para requalificar e construir residências e aumentar a oferta de alojamento para estudantes do ensino superior, que prevê a reabilitação de mais de 250 imóveis no país.

O PNAES promete, no prazo de 10 anos, duplicar o número de camas a preços acessíveis para estudantes deslocados do ensino superior, para cerca de 30 mil camas. O plano tem prevista para uma primeira fase a disponibilização de mais de 12 mil camas em todo o país até 2022, aproveitando edifícios devolutos ou do Estado, espalhados por 42 concelhos.

E já começou a dar frutos. Este ano há mais 595 novas camas disponíveis em todo o país para os estudantes do ensino superior, representando um aumento de 4% face ao ano letivo anterior. Passa a haver 15.965 camas – eram 15.370 no ano letivo 2017/2018. Este reforço no alojamento para estudantes do ensino superior “deve-se a um esforço conjunto desenvolvido no âmbito do PNAES que envolve pousadas da juventude, infraestruturas militares, dioceses e misericórdias, entre outros parceiros”, lê-se no comunicado do Governo.

As duas cidades com maior população estudantil são as mais beneficiadas: no Porto existem agora mais 261 camas enquanto em Lisboa são mais 186, segundo números do Executivo. No Porto, os estudantes podem agora conseguir um quarto na Pousada da Juventude Movijovem, na antiga messe do Exército, na diocese ou em três espaços da Santa Casa da Misericórdia - residências Barão de Nova Sintra, Gallery House e Bento XVI.

Em Lisboa, a oferta parte da Universidade de Lisboa que há duas décadas iniciou um projeto de construção do novo Polo da Ajuda, como o idealista/news noticiou. A segunda fase da construção desta unidade, que contempla mais 120 camas, deverá estar terminada no final do próximo ano.

Entre as obras já em curso em todo o país e as agendadas, está previsto que "em 2020 estejam disponíveis mais 2.500 camas, enquanto em 2021 estarão disponíveis mais 2.700 camas". As instituições de ensino superior assim como as autarquias continuam a desenvolver projetos.

Ainda em 2019 está previsto o arranque de várias obras de remodelação para dar resposta a mais 3.200 alunos. A maioria das camas vai surgir em Lisboa (1.264) e no norte (1.025 camas). Também estão previstas obras no centro do país para 501 estudantes, assim como nas regiões autónomas para 256 alunos.

Mercado das residências privadas ao rubro

O segmento das residências de estudantes começou a atrair cada vez mais investidores, sobretudo estrangeiros, atraídos pelo enorme potencial de crescimento do setor, que poderá valer mais de 500 milhões dentro de cinco anos, segundo os especialistas ouvidos pelo idealista/news, no arranque do ano. O negócios das residências privadas não está, apesar disso, ao alcance de muitas carteiras: os preços praticados são muito superiores aos do mercado de arrendamento.

Nas duas principais cidades – Lisboa e Porto – estão em marcha vários projetos, alguns já concluídos e outros em desenvolvimentos. Destacam-se investimentos como o dos austríacos da Milestone em Carcavelos - a residência da Universidade Nova tem 122 quartos e abriu em agosto de 2018; mas também na Asprela, direcionada para o segmento alto do mercado residencial universitário e que já abriu portas este ano letivo com 220 quartos individuais.

O projeto da Milestone na Asprela, em parceria com a construtora nacional Garcia Garcia / Garcia e Garcia
O projeto da Milestone na Asprela, em parceria com a construtora nacional Garcia Garcia / Garcia e Garcia

A residência Milestone Asprela vai ser vizinha de outra residência privada, a Livensa Living, unidade promovida pela Temprano, que se encontra numa fase de construção mais atrasada, embora o objetivo seja abrir ainda em outubro de 2019.

A Temprano referiu, ao idealista/news, que, “embora sujeito a confirmação”, a sua “expetativa atual é que os preços do Campus da U. Porto sejam de 450 euros por mês, incluindo serviços, comodidades e ligação à internet de alta velocidade”.

A Livensa Living - marca ibérica de residências para estudantes - foi o operador escolhido para gerir a residência em construção no Pólo Universitário de Paranhos, constituída por 580 estúdios. Inicialmente, estava previsto que esta unidade localizada num terreno adquirido em 2017 iria ser explorada pela Collegiate, operador que gere a unidade da Temprano no Marquês de Pombal, em Lisboa, o que acabou por não se confirmar.

Na residência Collegiate Marquês de Pombal, que arrenda estúdios por semestre ou por um ano letivo completo, um espaço de cerca de 15 m2, com casa de banho privativa, kitchenette e televisão começa nos 994,5 euros mensais. O estúdio mais caro tem cerca de 30 m2 e custa cerca 1.634 euros por mês.

A empresa belga Xior também vai investir cerca de 28 milhões de euros na abertura de duas residências para estudantes, em Lisboa e no Porto, em 2021 e 2022. Ambos os projetos em Portugal serão geridos pelo grupo francês Odalys. A unidade em Lisboa, na Rua Artur Lamas, vai ter 254 camas, e a do Porto, na Rua António Granjo, 420 camas.

Mas há mais projetos na calha. A espanhola Nexus também tem um um ambicioso plano estratégico para Portugal. O objetivo da empresa especializada em alojamento para estudantes é abrir em Lisboa e Porto entre seis e oito residências, entre o próximo ano e o seguinte, num total de 4.000 camas sob gestão, distribuídas pelas duas cidades.

A TPG Real Estate, braço da TPG que se dedica à gestão de ativos imobiliários, e a Round Hill Capital, empresa que se dedica ao investimento, desenvolvimento e gestão de ativos imobiliários, compraram um terreno com cerca de 39.000 m2 de área edificável no Campo Pequeno, onde será construída uma residência para estudantes com 390 camas e um empreendimento com 250 apartamentos – a residência vai ser gerida pela Nido Student.

O grupo U.HUB Investments, dos empresários Jaime Antunes e Hugo Gonçalves Pereira e da gestora de ativos Atrium, também está a construir aquela que será uma das maiores residências de estudantes de Portugal, num investimento global superior a 15 milhões de euros. Encontra-se na zona da Areosa, junto ao Polo Universitário da Asprela, no Porto. 

Antiga fábrica dá lugar a 660 camas com rendas "low cost"

E os projetos de alojamento para estudantes continuam a multiplicar-se. O mais recente projeto vai nascer um Guimarães, numa antiga fábrica situada a cerca de 650 metros do campus de Azurém, e irá chamar-se Aldeia Contemporânea.

O edifício industrial vai ser reabilitado e transformado em alojamento com 660 quartos individuais para estudantes, num investimento que irá rondar os 15 milhões de euros. As rendas serão “low cost”, não devendo ultrapassar os 200 euros mensais, segundo a notícia avançada pelo Expresso.

A empresa responsável pelo projeto é a Capital Urbano, sediada no Porto, uma gestora de ativos especializada no desenvolvimento e reconversão de imóveis. “Vamos incluir todos os acessórios essenciais a uma experiência coletiva: zonas de estudo, trabalho, leitura, ginásio, lavandaria, zona de refeições e uma série de espaços qualificados”, explica à publicação o coordenador da requalicação, Francisco Rocha Antunes.