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Famalicão atrai cada vez mais famílias para viver - porquê?

A cidade nortenha está a renascer e o idealista/news foi perceber como isso mexe com o mercado imobiliário local.

Reabiltiação do Centro de Famalicão
Projeto de reabilitação do centro urbano de Famalicão / Câmara Municipal de Famalicão
Autor: Vanessa Sousa

Bem a norte de Portugal, no distrito de Braga, há uma cidade a renascer. Vila Nova de Famalicão está a passar por um profundo processo de reabilitação do seu centro urbano, que vai tornar a cidade mais verde, mais acessível e mais segura. Hoje, Famalicão já tem um selo de qualidade e convida milhares de famílias para viver, reflentindo-se na elevada procura de habitação que está a fazer disparar os preços das casas. E como será a cidade no futuro? Será que vai atrair ainda mais pessoas? O idealista/news fez uma análise ao imobiliário da cidade de ontem, de hoje e de amanhã.

Foi a 19 de outubro de 2020, em plena pandemia da Covid-19, que arrancaram as obras de reabilitação do centro urbano de Famalicão. Considerado um dos maiores investimentos públicos de sempre na requalificação do espaço público da cidade, este projeto está orçado em oito milhões de euros. E o objetivo é só um: tornar a cidade “mais amiga das pessoas, do ambiente e do comércio de proximidade (…) uma cidade de futuro, inteligente e sustentável”, afirmou o presidente da Câmara Municipal, Paulo Cunha, a propósito do lançamento da primeira pedra e citado em comunicado.

Novos espaços verdes foram desenhados para a cidade do futuro, estando previsto plantar 300 novas árvores. A criação de um sistema ecológico de drenagem das águas é outra marca da sustentabilidade neste projeto. Em paralelo, há várias alterações planeadas ao nível da mobilidade, de forma a que as pessoas ganhem espaço e os carros percam terreno. Mas com isto não se perdem lugares de estacionamento: os dois parques no centro da cidade estão, sim, a ser reorganizados e a primeira área renovada do antigo Campo da Feira – com 75 lugares – já está disponível ao público desde 30 de julho de 2021, tal como também anunciou a autarquia na semana passada.

Reabilitação do centro de Famalicão
Projeto de reabilitação do centro urbano de Famalicão / Câmara Municipal de Famalicão

Os trabalhos de obra estão a avançar a bom ritmo mesmo em tempos de pandemia. E as expectativas dos profissionais do setor imobiliário local são otimistas. “Naturalmente que a renovação do centro urbano de Vila Nova de Famalicão é muito bem recebida por todos os famalicenses, e era até há muito esperada, dado alguns sinais de degradação que eram visíveis nos passeios e arruamentos no centro da cidade”, afirmou Carlos Morais, sócio-gerente e consultor imobiliário na Medium, em entrevista por escrito ao idealista/news.

Também Tiago Reis, diretor comercial na Lar de Sonho, confessou ao idealista/news que espera “com alguma expectativa e ansiedade [a reabilitação do centro de Famalicão], pois existem obras em vários pontos da cidade, e até ao seu término não podemos tirar conclusões”. Mas diz já que a renovada Praça - Mercado Municipal, que abriu ao público dia 25 de abril de 2021, “ficou bastante favorecida pelo que os munícipes aguardam com as expectativas altas a conclusão das restantes obras”.

Por seu lado, uma habitante da cidade partilha que aguarda também com grande expectativa o final das obras no centro urbano de Famalicão. Admitindo que estes trabalhos "estão a causar algum constrangimento para os negócios, que veem a calçada a ser mudada mesmo à sua porta, e para os moradores, que não encontram facilmente um lugar para estacionar perto de casa", Sofia Abreu considera que "tudo isto vai valer a pena", dando nota de que "já há alguns resultados à vista, como a mudança de pavimento, que, por ser plano, faz toda a diferença para as pessoas com dificuldades motoras e para as famílias que passeiam os seus filhos em carrinhos".

A jornalista, que antes viveu em Guimarães, Oeiras, Coimbra e na Marinha Grande, reside no centro de Famalicão há mais de dois anos e o que mais aprecia na cidade é a possibilidade de se deslocar a pé para qualquer lado. "Todos os serviços e transportes estão a menos de 15 minutos a pé. Os vários espaços verdes são também um ponto forte da cidade, com destaque para o parque da Devesa, que apesar de ficar a cinco minutos do centro urbano dá-nos a sensação de que estamos no meio da floresta e bem longe da cidade", relata ao idealista/news.

Mercado Municipal de Famalicão
Praça- Mercado Municipal de Famalicão / Câmara Municipal de Famalicão

O mercado residencial de Famalicão à lupa

De 2011 para cá, a cidade de Famalicão tem-se tornado mais atrativa para viver. Ora pela sua proximidade de grandes cidades como o Porto e Braga, ora pela acessibilidade aos serviços e transportes públicos. O diretor comercial na Lar de Sonho, que trabalha na agência há dez anos, diz ter assistido a “uma mudança abrupta do mercado imobiliário” de Famalicão, que foi alavancada por uma “maior disponibilidade da banca em conceder crédito à habitação”. Este cenário traduziu-se "num aumento consistentemente ao longo da última década quer do valor e do número de transações”, conclui Tiago Reis na mesma entrevista.

E nem a pandemia da Covid-19 pôs travão a este movimento. “Surpreendentemente o mercado imobiliário tem tido uma forte dinâmica durante a pandemia”, avança Carlos Morais, que trabalha no ramo há cerca de 40 anos. Na Medium, o “impacto da pandemia revelou-se altamente positivo nas vendas, que é a área a que nos dedicamos mais intensamente”, detalha o responsável.

Centro Urbano Famalicão
Câmara Municipal de Famalicão

Já Tiago Reis admite que "até ao verão de 2020 sentimos o impacto inerente às medidas impostas para controlo da pandemia", o que levou a agência imobiliária a adaptar a sua estratégia. Mas "a partir daí o mercado sentiu uma forte avidez de mudança o que se traduziu num ano similar ao de 2019". E, é por isso que, afirma que “o mercado imobiliário tem mostrado grande resiliência em comparação a outros setores”, o que se reflete no aumento da procura, que “seria ainda maior se existisse uma maior oferta de imóveis para venda”.

Centro de Famalicão
Centro urbano de Famalicão / Câmara Municipal de Famalicão

Oferta de casas não acompanha procura

A habitante Sofia Abreu indica que vê muitas casas à venda no concelho de Famalicão nas vitrines das agências imobiliárias da cidade, mas destaca que, no entanto, não há casas para arrendar. "Quando decidi viver na cidade encontrar casa não foi tarefa fácil. Há pouca oferta no mercado de arrendamento e a que há é a preços exorbitantes", afirma.

O desequilíbrio entre a oferta e a procura de casas na cidade é, de facto, um problema. Os dados do idealista/data mostram que a procura por apartamentos em junho de 2021 é 0,9 pontos (pts) superior à verificada antes da pandemia, em junho de 2019. Já o stock de apartamentos é apenas 1% superior.

Um cenário semelhante se verifica analisando os dados das moradias: a procura é 1.9 pts superior em junho de 2021 face ao mesmo mês de 2019, mas o stock desceu em 47%. Esta queda abrupta do número de vivendas no mercado poderá estar relacionada “com o facto das moradias terem uma procura superior à dos apartamentos”, explicam os analistas do idealista/data.

Apartamentos e moradias mais caros

Tudo isto influenciou os preços das casas em Famalicão nos últimos dois anos. Segundo analisam os especialistas do idealista/data, “no concelho de Famalicão, assiste-se a uma evolução positiva dos preços unitários no mercado residencial, que pode ser interpretada como consequência do aumento da procura”. No caso dos apartamentos, os preços unitários atingiram os 1.424 euros por metro quadrados (m2) em junho de 2021 – um valor 46% superior ao de junho de 2019. Nas moradias, o preço unitário subiu 31% entre estes dois momentos, fixando-se em junho deste ano nos 1.330 euros/m2.

Na cidade, o preço médio das casas também é superior face ao período pré-pandemico. Em junho desde ano um apartamento no concelho de Famalicão custava em, media, 171.190 euros (+19% do que em junho de 2019). E uma moradia custava 365.606 euros (+3%). O que os dados do idealista/data também mostram é que o valor médio das moradias entre setembro de 2019 e março de 2021 manteve-se praticamente estável.

Para 2021, Tiago Reis espera que a Lar de Sonho registe "uma subida nas transações na casa dos dois dígitos, sendo que a escassez de oferta no mercado de arrendamento se manteve, enquanto a procura se mantém elevadíssima", disse na mesma entrevista.

O que reserva o futuro para a cidade?

Hoje, Vila Nova de Famalicão já é reconhecida pela sua qualidade de vida a nível internacional, tendo sido congratulada pela World Council on City Data, com o nível de Gold no âmbito do referencial normativo “ISO 37 120 Sustainable cities and communities — Indicators for city services and quality of life”, anunciou a Câmara Municipal da cidade numa nota de imprensa publicada a 13 de julho de 2021.

E com a reabilitação do centro da cidade - cujo termino está previsto para outubro de 2021 - viver em Famalicão poderá ser ainda melhor. “É todo um novo paradigma urbano que vai ser potenciado no núcleo central de Vila Nova de Famalicão que permitirá a fruição do espaço público com uma qualidade de vida muito superior à existente”, disse o autarca Paulo Cunha citado em comunicado.

Reabilitação do centro de Famalicão
Projeto de reabilitação do centro urbano de Famalicão / Câmara Municipal de Famalicão

Este projeto de requalificação da cidade - cofinanciado pelo NORTE 2020, através do Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional - , poderá ser o motor para que outros edifícios da cidade sejam reabilitados. Carlos Morais considera que esta obra “naturalmente vai desencadear um processo de reabilitação de outros edifícios que há muito aguardam alguma intervenção”. Também Tiago Reis assume que o “patamar de exigência em termos urbanísticos terá tendência a aumentar, mas será um processo lento e gradual”.

E esta cidade do futuro poderá atrair ainda mais famílias para viver? “Haverá alguma especulação na procura de habitação no centro”, considera Tiago Reis, que acrescenta ainda que “sobre a oferta temos de esperar para ver”. Já Carlos Morais não crê que “esta obra venha a ter grande impacto no mercado imobiliário” da cidade.

Reabilitação do Centro Urbano de Famalicão
Projeto de reabilitação do centro urbano de Famalicão / Câmara Municipal de Famalicão

Novas casas trazem novos desafios

Viver em Famalicão será possível, sobretudo, junto ao parque da Devesa, onde “estão em curso vários projetos de elevada qualidade, alguns com planos de oito a dez anos”, avança o sócio gerente da Medium, que garante que “esta zona será o local de residência preferido por quem escolhe Vila Nova deFamalicão para residir”. Este extenso parque às portas do centro da cidade é mesmo, segundo Carlos Morais, o “principal polo aglutinador da cidade”.

A consolidação da malha urbana poderá também trazer novos problemas para Famalicão. Para os especialistas ouvidos pelo idealista/news, as maiores preocupações sobre futuro da cidade prendem-se com os acessos rodoviários, uma vez que “nos últimos anos já se tem sentido um maior tráfego e trânsito nas principais vias de acesso a todo o concelho de Famalicão”, sublinha Tiago Reis. Por seu turno, Carlos Morais acredita que no futuro “haverá a necessidade de melhorar as acessibilidades à cidade e a circulação nas principais artérias, dado que irá haver um crescimento exponencial de viaturas que diariamente acedem à cidade”.

Parque da Devesa
Parque da Devesa às portas da cidade / Câmara Municipal de Famalicão