Só 1 em 3 casas à venda em Portugal custa até 300 mil euros

Casas mais procuradas pelas famílias são as mais difíceis de encontrar. E falta de oferta de habitação acessível empurra preços para máximos, mostra o idealista.
Habitação acessível em Portugal
Getty images

Portugal vive uma grave crise no acesso à habitação pautada por falta de casas para comprar a preços acessíveis, com valores que as famílias residentes no país consigam pagar com os seus salários, mesmo com recurso a crédito habitação. Esta realidade é bem espelhada pelos dados mais recentes do idealista: no início de 2026, só uma em cada três casas à venda no mercado nacional custava até 300.000 euros — precisamente o segmento onde a procura é mais intensa e o stock caiu 31% num ano.

Menos casas para comprar em Portugal – maior queda na oferta acessível 

No último ano, houve uma queda generalizada no número de imóveis residenciais no país (-19%), para pouco mais de 100.000 apartamentos anunciados no idealista no primeiro trimestre de 2026 - marketplace imobiliário líder em Portugal, Espanha e Itália.

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Mas, a nível nacional, observaram-se reduções bem diferentes consoante o patamar de preços:

  • Até 300.000 euros: oferta caiu 31% entre o início de 2026 e o mesmo período do ano anterior para menos de 40 mil casas. Nas diferentes faixas de preços que compõem este patamar, o stock habitacional com preços até 210.000 euros diminuiu para menos de metade;
  • Acima de 300.000 euros até 600.000 euros: stock desceu 11% num ano, para cerca de 47 mil apartamentos;
  • Acima de 600.000 euros: a oferta residencial no patamar mais elevado caiu apenas 8% para quase 22 mil imóveis.

Esta dinâmica inverteu os protagonistas do mercado: se há um ano a oferta mais expressiva se concentrava nos preços mais acessíveis (42% do total), esse peso caiu agora para 36%."

Agora, a oferta habitacional mais expressiva situa-se entre 300.000 euros até 600.000 euros (44% do total). E os apartamentos que custam mais de 600.000 euros continuam a ter um peso importante representando um quinto do stock, revela o idealista/data. Tudo isto acaba por ajudar a explicar a rápida subida dos preços das casas no país para novos recordes. E também reflete os altos custos da construção (mão de obra e materiais) que dificulta a colocação de casas novas a preços acessíveis no mercado. 

O mercado aguarda julho para a entrada em vigor do IVA a 6% na construção e beneficia já da isenção de IMT e Imposto do Selo para jovens até 35 anos — duas das principais medidas do pacote fiscal do Governo, publicado em Diário da República a 20 de maio. A simplificação do licenciamento urbanístico, com a revisão do RJUE, deverá ainda acelerar a entrada de novos projetos no mercado.

A realidade da oferta de casas nas grandes cidades é diferente….

O cenário nacional da oferta de casas à venda esconde várias diferenças a nível local. Desde logo, os apartamentos para comprar abaixo de 300.000 euros representam, pelo menos, metade do stock em 12 das 20 capitais de distrito (ou de regiões autónomas) analisadas. 

Neste patamar de preços mais acessível correspondem à grande maioria do stock habitacional em Bragança (98%), Beja (86%) e na Guarda (82%). Esta realidade também é bem expressiva em Castelo Branco, Évora, Portalegre, Viana do Castelo, Santarém, Braga, Viseu, Setúbal e em Vila Real, revelam os dados do idealista/data referentes ao início do ano.

No Porto, os apartamentos à venda até 300.000 euros representam um terço do stock total, sendo que a oferta mais expressiva na Invicta é mesmo nas casas com valores acima de 300.000 euros até 600.000 euros, que pesam 45% no total. Já as casas que custam mais de 600.000 euros pesam 25% sobre a oferta na cidade.

Já o Funchal (ilha da Madeira), Lisboa e Faro são as cidades que têm menor oferta de casas à venda nos degraus mais baixos (3%, 7% e 14%, respetivamente). Enquanto no Funchal e em Faro a maioria da oferta se concentra no intervalo de preços intermédio, em Lisboa a fatia mais expressiva da oferta possui preços acima de 600.000 euros (49% do total).

Alta procura de casas à venda com preços até 300.000 euros

No que diz respeito à procura de casas para comprar em Portugal, observa-se uma pressão mais elevada nos apartamentos que custam até 300.000 euros. Dentro deste patamar, destacam-se os apartamentos com preços entre 90.000 euros e 180.000 euros que obtiveram uma média igual ou superior a 10 contactos por anúncio no primeiro trimestre, a mais alta de todas.

E esta pressão não se explica só pela escassez de oferta, sendo que estes apartamentos enquadram-se também na isenção de IMT para jovens, já em vigor.

À medida que subimos nos níveis de preços das casas para comprar, o número de contactos por anúncio tende a diminuir, uma vez que o custo habitacional passa a enquadrar-se em cada vez menos orçamentos familiares, sugerem os dados.

Também em todas as 20 capitais de distrito analisadas, a pressão da procura tende a ser muito superior nos anúncios até 300.000 euros. Em Lisboa, Porto, Faro, Funchal e em Setúbal destaca-se também o interesse por casas entre 300.000 e 600.000 euros, que se enquadram, em parte, na isenção parcial do IMT Jovem (casas entre 330 mil euros e 660 mil euros). No caso da capital, observou-se a existência de uma clara atração por casas mais caras, acima de 600.000 euros.

Interesse por comprar casa cresce no último ano….

O que também salta à vista é que a procura de apartamentos à venda em Portugal aumentou na generalidade das faixas de preços analisadas entre o primeiro trimestre de 2026 e o mesmo período do ano anterior – embora com algumas exceções. 

No segmento mais acessível de preços, destacam-se aumentos a dois dígitos no interesse por casas entre os 150.000 euros e 270.000 euros. Mas o crescimento mais expressivo da procura (com aumentos superiores a 30%) foi observado no tramo entre 300.000 euros e 600.000 euros. 

Este aumento da procura pode ser explicado não só pelos apoios aos jovens (isenção de IMT e garantia pública), mas também pela estabilidade do mercado de trabalho e pelos juros ainda acessíveis no crédito habitação no arranque do ano – entretanto, as taxas Euribor começaram a aumentar por efeito da guerra no Médio Oriente.

Casas acessíveis tendem a sair mais rápido do mercado

Analisando o tempo em que os anúncios deste tipo ficaram online no idealista no primeiro trimestre de 2026, verifica-se que os apartamentos até 300.000 mil euros tendem a sair mais rápido do mercado (uma média de 80 dias, ou seja, menos de três meses). No nível intermédio de preços (300.000 euros e 600.000 euros), o tempo médio dos apartamentos no mercado sobe ligeiramente para 82 dias. E no nível mais elevado, a partir de 600.000 euros, dispara para uma média de 119 dias.

Na gama de valores mais baixos, os apartamentos que saem mais rápido do mercado têm preços entre 180.000-270.000 euros, uma vez que os anúncios ficaram publicados no portal imobiliário pouco mais de dois meses. Há, contudo, exceções neste patamar acessível: as casas até 60.000 euros e os imóveis com preços entre 90.000-120.000 euros ficaram mais de três meses anunciados antes de saíram do mercado. Importa lembrar que as características das casas – estado de conservação, localização e tipologia – podem muitas vezes não ir ao encontro da procura.

Confirmando a mesma tendência, nas capitais de distrito as casas até 300.000 euros são também as primeiras a sair do mercado. E isso é bem visível nas duas maiores cidades do país. Em Lisboa e no Porto, os apartamentos mais acessíveis ficaram no mercado pouco mais de dois meses no início deste ano, revela ainda o idealista/data. O tempo médio no mercado tende a subir nestas cidades consoante aumenta o patamar de preços – mas mesmo as casas mais caras ficam uma média de quatro meses anunciadas em Lisboa e cerca de três meses no Porto.

O que também é bem visível é que, regra geral, as casas até 600.000 euros ficaram menos tempo no mercado no primeiro trimestre de 2026 do que no mesmo período do ano anterior, com a redução mais expressiva a observar-se nos apartamentos entre 60.000 e 90.000 euros (-28%). Também se observaram reduções expressivas no tempo médio no mercado – de dois dígitos – nos apartamentos que custam entre 180.000 euros e 600.000 euros.

Os dados mostram um mercado cada vez mais polarizado, onde as casas acessíveis saem em menos de três meses e a oferta continua a encolher sem empreendimentos novos disponíveis. O IVA a 6% na construção e a simplificação do licenciamento são as principais apostas do Governo da AD para inverter esta tendência — mas os investidores e especialistas do setor estimam que os seus efeitos ainda vão demorar a fazer-se sentir pelas famílias. Até lá, a questão já não é só de preços e capacidade para comprar casa: é de existência de escolha.

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